O morango de cultivo é um “ pseudo ” fruto muito delicado com aroma doce, sabor fresco e textura firme

ORIGEM E HISTÓRIA

O morango de cultivo faz parte da dieta de milhões de pessoas no mundo inteiro e é conhecido pelo seu sabor delicado, bonita forma e alto teor de vitaminas.

A planta de morango de cultivo (Fragaria ananassa) pertence à família Rosaceae, subfamília Rosoideae.

Historicamente e quando comparado com outros frutos, o morango tem um percurso recente. Os poetas romanos Virgílio e Ovídio mencionaram o fruto no século I a.C. enquanto ornamento e não como alimento. Já na Antiguidade, os morangos selvagens eram consumidos por pessoas de todo o mundo, mas não em grandes quantidades, dado serem frutos pequenos, de difícil colheita e/ou com pouco sabor.

Os morangos selvagens (Fragaria vesca) e os morangos “Musky” (Fragaria moschata) passaram a ser cultivados na Europa e na Rússia durante o Período Medieval. Os morangos americanos eram apreciados pelos colonos no leste dos Estados Unidos da América.

No início do século XVIII, num jardim botânico em França, plantou-se Fragaria virginiana (macho), com origem nos EUA, na proximidade de Fragaria chiloensis (feminino), com origem no Chile. Intencionalmente ou não, este cruzamento criou híbridos que passaram a ser conhecidos como morango de ananás ou pinhão. Estes híbridos são os progenitores da moderna planta de morango de cultivo, Fragaria ananassa. Surgiu, assim, uma nova espécie, com uma destacada característica diferenciadora: o tamanho.

A primeira variedade de morango americana (Hovey) foi desenvolvida por Charles Hovey, em 1834, tornando-se o antepassado da maioria das variedades modernas. Antes de 1920, a maior parte de cruzamentos de morangos era feita pelos produtores, mas, desde então, quase todas as novas variedades foram desenvolvidas por investigadores em estações agronómicas.

Em 1951, James Wilson cruzou o morango Hovey com outras variedades criando uma com o seu nome. Esta era mais produtiva, mais firme e mais dura do que qualquer outra variedade, podendo ser cultivada em quase qualquer solo. A floração permitia que fosse cultivada sozinha sem necessidade de outra variedade para polinização. Wilson transformou, assim, o morango numa grande cultura que rapidamente se expandiu por todo o continente americano. Em poucos anos, a produção de morangos aumentou 50 vezes, atingindo os 100 mil hectares.

CLASSIFICAÇÃO
TAXONÓMICA

Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Rosales
Família: Rosaceae
Gênero: Fragaria

O morango pertence ao género Fragaria, à família Rosaceae, e à subfamília Rosoideae, tal como as amoras e as framboesas. O género Fragaria é classificado em espécies primárias e em espécies não primárias (variedades botânicas, subespécies ou híbridos), que são na sua maioria de geração espontânea. Este género é caracterizado por ter 17 cromossomas e acredita-se ter tido origem em duas formas primitivas: Prunoidae e Spiraeoideae com 8 e 9 cromossomas, respetivamente. Há mais de 20 espécies e variedades híbridas categorizadas neste género.

Atualmente, quase toda a produção comercial de morango é da variedade Fragaria Ananassa e 98% está localizada no hemisfério norte do globo.

As cores e aspeto de cada morango podem variar bastante consoante a sua variedade:

MORANGO DOS HIMALAIAS

Quase sem sabor e sem interesse comercial, é cor-de-rosa com pontos roxos.

MORANGO KLUBNIKA (Rússia)

Apesar das semelhanças de aspeto, o sabor é quase completamente distinto do morango “normal”, sendo mais ácido.

MORANGO MUSK (Almiscarado)

Parece-se muito com a framboesa, mais até do que com o morango. Esta espécie é cultivada comercialmente em pequena escala, principalmente em Itália. O sabor é uma mistura de morango, framboesa e ananás.

BOTÂNICA

Planta
A planta do morango é herbácea, perene e estolonífera, o que significa que se espalha por meio de estolhos ou “corredores”. Possui um tronco central ou coroa de onde surgem folhas, raízes, estolas e inflorescências. As folhas são geralmente trifoliadas e dispostas em espiral e são substituídas na primavera. As raízes emergem da base da coroa, que está em contato com o solo.

Flores
As flores são brancas, com cerca de 25 milímetros de diâmetro, com dez sépalas, cinco pétalas, 25 a 30 estames amarelos e 60 a 600 pistilos num recetáculo cónico, elevado e amarelo.

Polinização
A maioria das plantas são cultivadas pelo Homem e não precisam de polinização cruzada para ter fruto. No entanto, a atividade das abelhas é benéfica na transferência de pólen para estigmas na flor individual.
Existem quatro grupos básicos de fertilização, que variam consoante o número de cromossomas e o número de elementos de composição. Algumas espécies são diploides, com dois pares de cromossomas, outros são tetraploides, o que significa que têm 4 pares, ao passo que o morango moderno é octaploide, com 8 pares de cromossomas. O cruzamento é mais difícil quando os elementos do agrupamento dos cromossomas são diferentes.

Fruta
O morango é um “pseudo” fruto, que se origina do desenvolvimento do recetáculo de uma única flor, uma vez que a porção comestível é de origem não ovariana. Os frutos verdadeiros, que contêm a semente do morangueiro, são os aquénios, os pequenos pontos pretos elipsoides que cobrem a superfície da fruta. Os frutos amadurecem rapidamente e a maturação ocorre em 20 a 50 dias após a polinização.

Sendo frutos muito perecíveis, as perdas pós-colheita podem ser elevadas, caso não sejam utilizadas as técnicas corretas de colheita.
A pré-classificação dos frutos durante a colheita é muito importante, sendo eliminada toda fruta deformada, muito madura e danificada por fungos ou insetos.

Os frutos do morangueiro, dado possuírem epiderme fina, grande percentagem de água e alto metabolismo, são muito delicados e pouco resistentes, exigindo muitos cuidados durante a colheita. Esta é, assim, uma das fases mais importantes de todo o ciclo produção. Além de todo o cuidado necessário, colher o fruto na altura certa é crucial para garantir a qualidade (e, consequentemente, o valor comercial). Se colhidos muito maduros, poderão chegar aos pontos de venda em decomposição ou podridão. Se forem colhidos ainda verdes, terão um sabor ácido e adstringente e falta de aroma.

O sabor do morango é um dos pontos de qualidade mais exigidos pelo consumidor, estando sobretudo relacionado com a proporção correta entre o açúcar e a acidez. Por isso, os frutos são colhidos quando estão a ¾ da coloração madura e desenvolvem a restante maturação em armazenamento (os frutos que não são consumidos frescos são colhidos mais tarde). Assim que são colhidos, os morangos são rapidamente refrigerados e mantidos a uma temperatura inferior a 5ºC durante 5 a 10 dias, sem perder qualidade.

A apanha ainda é manual, estando em curso o desenvolvimento de maquinaria com elevado poder de aspiração, para promover a automatização da colheita.

Apesar de se cultivar morangos com objetivos comerciais em vários tipos de clima, desde o mediterrânico à taiga (floresta boreal em regiões localizadas a elevadas latitudes), a maior parte da produção tem lugar em países com clima temperado ou mediterrânico, com temperaturas médias no verão entre os 15ºC e os 30ºC.

15-35 mm (Médio)
Formato: Oval/Cónica
Epiderme: Muito fina
Cor: Encarnado
Cor da polpa: Encarnada e branca no interior
Características organolépticas: Doce, firme mas não crocante

PRODUÇÃO MUNDIAL

 

As maiores áreas de produção mundial de morangos encontram-se na China (111.132 ha), na Polónia (47833 ha) e na Rússia (29754 ha) (FAOSTAT, 2018). Na Europa, os maiores produtores são a Polónia, Rússia, a Turquia (16102 ha) e a Alemanha (13998) (FAOSTAT, 2018).

Mundialmente, os três maiores produtores de morangos a nível mundial são China (2964263 Ton), os Estados Unidos (1296272 ton) e o México (653639) (FAOSTAT, 2018). Na Europa os principais produtores são Turquia (440968 ton), Espanha (344679 ton), Rússia (199000 ton) e Polónia (195578 ton) (FAOSTAT, 2018).

EM PORTUGAL

Em Portugal, a cultura do morango ocupa uma área de 323 hectares, com uma produção anual superior a 10.600 toneladas (INE, 2018).

As regiões com maior produção são o Algarve, o Ribatejo e Oeste e o Alentejo. A cultura protegida é a predominante no Alentejo, localizada na sua maioria nos concelhos de Odemira e Santiago do Cacém. No Ribatejo e Oeste são mais comuns a cultura sob coberto e ao ar livre. No Algarve, a produção divide-se entre estufa e ar livre e concentra-se maioritariamente em Faro e Olhão.

Em Portugal, o morango é produzido praticamente durante todo o ano, ocorrendo o período de maior oferta na Primavera, de abril a junho, e o de média oferta de fevereiro a março e julho. A época outonal corresponde ao período de menor oferta (AGRO 556, 2007, INIAV).

Os frutos que não possuem qualidade ou calibre para a comercialização em fresco são canalizados para a indústria de transformação.

Apesar das exportações terem vindo a aumentar gradualmente (cerca 4000 toneladas em 2017 para 5000 em 2018) (INE, 2018), a balança comercial é deficitária sendo importadas mais de 19.000 toneladas de morangos e exportadas apenas cerca de 5.000 (INE, 2018). A Espanha, Holanda e Reino Unido são alguns países do norte da Europa onde o morango português tem boa aceitação, encabeçando o topo da lista das exportações nacionais (GPP, 2018).

Em Portugal, a cultura em hidroponia, técnica através da qual se cultivam os morangos sem necessidade de solo,  tem aumentado nos últimos anos, já que permite boas produtividades, uniformidade dos frutos e redução do consumo de água e de nutrientes. Alguns dos maiores produtores têm vindo a proceder à substituição dos estufins por túneis altos, que possibilitam o trabalho com máquinas e tornam os tratamentos fitossanitários mais fáceis e seguros.

Devido a uma crescente procura, regista-se um aumento progressivo da produção de morango em Proteção Integrada e também em Agricultura Biológica.

COMPOSIÇÃO
NUTRICIONAL

A tabela 1 representa a composição nutricional de 100g de morango. Do ponto de vista nutricional, os morangos são compostos de aproximadamente 90% água e 10% de sólidos, sendo muito rico em vitamina C.
Tabela 2. Composição Nutricional por 100g de porção edível de Morango.

Para (100g) % DDR
Energia (kcal) 34
Macronutrientes
Água (g) 92
Proteína (g) 0,6
Gordura Total (g) 0,4
Hidratos de Carbono Totais (g) 5,3
Fibra Alimentar (g) 2
Vitaminas
Vitamina A (Equivalentes de retinol, µg) 4 1
Vitamina D (µg) 0 0
Vitamina E (α-tocoferol, mg) 0,2 2
Vitamina B1 (Tiamina, mg) 0,02 1,8
Vitamina B2 (Riboflavina, mg) 0,03 3
Vitamina B3 (Niacina, mg) 0,6 4
Vitamina B6 (Piridoxina, mg) 0,05 4
Vitamina B12 (Cobalamina, µg) 0 0
Vitamina C (Ácido Ascórbico, mg) 47 59
Folatos (µg) 47 24
Minerais
Cinza (g) 0,58
Sódio (mg) 2 0
Potássio (mg) 140 7
Cálcio (mg) 25 3
Fósforo (mg) 26 4
Magnésio (mg) 10 3
Ferro (mg) 0,8 6
Zinco (mg) 0,1 1

Fonte: TCA – Tabela de Composição de Alimentos. Centro de Segurança Alimentar e Nutrição. Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. (Adaptado de: http://www.insa.pt). Dose Legal Recomendada Nacional, aprovada em Diário da República (http://www.apcv.pt/pdfs/legislacao/DL%2054_2010.pdf)

Para além de ser uma das frutas mais bonitas, o morango é multifacetado. É consumido fresco ou usado como ingrediente na culinária em sumos, compotas, iogurtes, gelados, batidos, gelatinas e outra pastelaria.

Dez morangos contêm praticamente a dose diária recomendada de vitamina C, o que prova a riqueza do fruto nesta vitamina. O ácido elágico e as antocianinas (cuja função é proteger os frutos da luz ultravioleta conferindo-lhes a cor encarnada) constituintes do morango têm, ainda, algumas propriedades anticancerígenas.

O paladar do morango é uma combinação complexa de doçura e acidez. É um fruto com poucas calorias e pode adicionar-se a saladas e outros pratos, proporcionando sabor e estética à mesa.